sexta-feira, 10 de julho de 2009

Medo

O Milan Kundera me fascina, mas também me apavora.
Um dia ele vem e me diz que a “insustentável leveza do ser” nos leva por caminhos que a gente não faz a menor idéia se são corretos ou não. No mesmo dia ele acrescenta que toda essa baboseira de amor em plenitude total, à completa sincronia de almas, o amor tranqüilo só pode ser encontrado na hora da morte, ou depois dela talvez. E que na verdade a vida e as nossas escolhas traçam nosso futuro, é difícil pensar que não tem nada traçado lá no fim. É apavorante a responsabilidade por tudo isso. Quem define mesmo a nossa vida é o acaso, as decisões (muitas mal tomadas no calor das emoções), algum impulso. Nada de muito concreto. Para alguém controlador como eu essas considerações são de surtar. Por isso acho que ando meio surtada, lendo Kundera e observando a minha vida passar.
Já “A ignorância” é uma aula de realidade bem ambientada. O que significa tudo na minha memória, talvez não passe de traços de recordações sem forma na sua cabeça. Onde estaremos daqui a muito tempo? Gostaria muito de continuar pensando que não é possível se perder no mundo quando algo foi tão importante. Mas “A ignorância” me diz que importância que tem para mim pode não ser nada para você, e agora? E se for, pode sim deixar de ser, você pode amar e escolher ficar longe, ou não perceber que ama, e quando parar para prestar atenção! aqueles muitos anos de espera não passaram de um piscar de olho em que tudo se perdeu. Essa história de o que tiver de acontecer, vai acontecer, mentira! O que vai acontecer depende das escolhas que estamos tomando agora.
Kundera não me deixa opções, se insistir já não deu resultados (afinal não tem como colocar as minhas certezas na cabeça de ninguém), deixar passar pode ser trágico. Não quero olhar pra traz e ver que eu não fiz nada para impedir, mas impensável fazer algo agora.
Se o único sentimento que se revela em meio a tantos outros não pode ser definido em português (mas Kundera define em tcheco styska se mi po tobe), não significa nada na prática.
Se estar longe é como perder uma parte de alma, estar perto é perder tempo de vida.
A proximidade é impossível pelos anos discutidos, pelas palavras não ditas, pelos momentos não vividos, pelas mágoas imperdoáveis passadas (bem presentes e também futuras, acredito eu se permitidas), pelo amor desperdiçado (a gente tinha tanto amor assim pra jogar fora dessa maneira? Não acredito que fosse demais). Mas a ignorância é o que separa. Espero que refletir sobre o que acontece já seja uma maneira de não deixar a vida passar sem interferir. Eu penso, e todo dia chego a mesma conclusão: eu quero distância! Mas tenho muito medo de te perder no mundo. Eu não entendo seus sentimentos? Ou você não entende seus sentimentos? Milan Kundera entende, esclarece, mas não apresenta caminhos.

Se eu pudesse te dar um conselho seria “Pense!”, tente entender que existe algo mais. Kundera é uma boa referência bibliográfica.

Trecho de “A Ignorância”, nem de longe o melhor livro, mas de longe a melhor definição de amor (ao menos do meu).

"Em grego, retorno se diz nóstos. Álgos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Para essa noção fundamental, a maioria dos europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgie, nostalgia), e também outras palavras com raízes em sua língua nacional: añoranza, dizem os espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua, essas palavras possuem uma conotação semântica diferente. [...] Os tchecos, além da palavra nostalgia de origem grega, têm para a noção seu próprio substantivo, stesk, e seu próprio verbo; a frase de amor mais comovente em tcheco: styska se mi po tobe: sinto nostalgia de você; não posso suportar a dor da sua ausência. Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, este da palavra latina ignorare (ignorar). À luz dessa etimologia, a nostalgia surge como o sofrimento da ignorância. Você está longe e não sei o que se passa com você."